segunda-feira, 23 de novembro de 2009

...The Wind Began To Howl


Sobre o filme.

Imediatamente depois de ler a HQ, assisti ao Watchmen de Zack Snyder (diretor de 300) lançado no começo do ano. Soube da existência da série pelo filme, e estava empolgada para ver não só por causa das críticas entusiasmadas que saíram na época mas também para ver o que foi perdido na passagem de uma história tão longa e complexa para um roteiro de blockbuster.

É, eu acho que dá pra dizer que é uma adaptação boa na medida do possível. Os efeitos especiais estão muito caprichados, e para um estúdio bancar esses efeitos, precisa de investimentos, e quem vai investir em um filme experimental sobre super-heróis? Não dava para arriscar na narrativa, dificultar o entendimento. Enfim, fazer algo diferente/interessante. A história, com começo meio e fim foi priorizada e nisso, grande parte do charme da HQ foi para o espaço.

Não dá para reclamar (muito). Praticamente todas as cenas do filme estão iguais às da HQ. Falas, inclusive. É claro que só alguém muito bobo iria desperdiçar falas bem escritas já prontas, porém continua sendo um ponto a favor. Não entendi algumas mudanças que fizeram, coisinhas mínimas, que estavam boas do jeito que estavam, mas fazer o quê. E na correria de contar a história que ficou com quase 3 horas, os personagens perderam profundidade. O que críticos literários chamariam de "planificação", talvez? Bom, pobre Rorschach.

Conselho: leia o livro, veja o filme só para falar da trilha e dos créditos iniciais depois. (Melhores partes pra mim.)



Obs.: Os títulos desse e do outro são o último verso de "All Along the Watchtower", mais conhecida com o Hendrix, que era um fã maluco de Dylan.


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Ouvindo Dylan, "Only a Pawn in Their Game".

Two Riders Were Approaching...

O dia antes da Fuvest, notória prova seletiva da universidade de São Paulo, é o momento que muita gente escolhe para entrar em pânico. Porque no fim das contas, esse é o único resultado que estudar aquela parte de Física que você esqueceu vai trazer. No entanto, para quem se preparou exaustivamente e tem consciência disso, aquele Sábado maldito é dia do hedonismo mais exageradamente self-indulgent que pode haver.

Na véspera da prova do ano passado*, depois de estudar até que bastante e estar bem nervosa por causa do corte alto e da concorrência absurda, fui ao cinema à noite ver Jules et Jim, clássico de François Truffaut. Nada de projeção digital, era uma película antiqüíssima e graças à idade, em um estado não muito bom (o cara sentado do meu lado estava puto). De certa forma esse filme me ajudou a fazer a prova com calma. Dessa vez, escolhi ficar literalmente sentada na frente do computador o dia inteiro lendo - e vendo - Watchmen. Melhor idéia, impossível.

Watchmen é uma série de HQs da DC Comics, criada por Alan Moore e Dave Gibbons, publicada em 12 volumes entre 1985 e 86.

Em geral, super-heróis ficam muito bem no cinema. O primeiro Homem-Aranha é ótimo, X-Men idem, mas nunca senti vontade de ler os quadrinhos. As séries são muito longas, às vezes independentes umas das outras, e tudo parece sempre ser mais ou menos a mesma coisa. Daí, eu infelizmente não tenho autoridade nenhuma para comparar Watchmen com os outros super-heróis. A parte boa é que você não precisa ser um expert no assunto para enxergar a genialidade desse livro; ele é brilhante em um monte de outros aspectos.

A história é contextualizada no iminente conflito nuclear entre EUA e URSS (no mesmo ano de publicação) e em uma sociedade que discute o papel dos heróis mascarados, que com apenas uma exceção, não passam de pessoas normais que usam a violência em parceria com o Estado e de certa forma, paralelo a ele. Às vezes, tão paralelamente que a própria sociedade se perguntava: e quem vigia os Watchmen?

A tal exceção é o Dr. Manhattan, nome dado ao físico que sofre um acidente nuclear e transforma-se num ser praticamente onipotente, desbalanceando a corrida armamentista do conflito e tornando-o ainda mais imprevisível e perigoso.

Além de todas as inovações temáticas, o que mais salta aos olhos está no campo estilístico. A quantidade de recursos que é usada é imensa, e não é do tipo "Guimarães Rosa", ou seja, "ele pode, mas se você, reles mortal, fizer vai se passar por imbecil". Nem é cansativo. Não, não; é genuinamente incrível. Está na linguagem oral, no jeito que os personagens se expressam, no tempo que vai e volta, na intertextualidade, nas tramas paralelas e simultâneas que se complementam, na violência dos desenhos, na reprodução de cartas, livros, jornais, documentos e todo tipo de texto (texto mesmo, prosa) que ajude a entender os personagens e os desdobramentos da história. É tanta coisa que nem vale a pena falar de tudo.

Perdoe a empolgação, mas é reconfortante ainda ser capaz de se impressionar com as coisas. Mesmo que "coisas" seja adorado por milhares de pessoas e não seja exatamente desconhecido.



P.S.- Li a versão em inglês, não faço idéia se a tradução é decente. Mas vale lembrar que a tradução sempre estraga um pouquinho, mais ainda quando o texto é cheio de gírias, trocadilhos e tal.

P.P.S.- É super fácil achar torrent da HQ na internet, é só jogar "Alan Moore Watchmen" que aparece. Lembrando também que eu baixo arquivos porque eu sei que vou acabar tendo; só preciso descobrir se a edição fresca com a caixa e aquela coisa toda está esgotada mesmo. Coisa de gente geek, vai entender.

* A maratona já tinha começado uma semana antes, com a prova da Unicamp e o show do REM. ;)


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Ouvindo Falco, "Männer des Westens - Any Kind". Meio chato, mas pelo menos deu clima de anos 80.

sábado, 14 de novembro de 2009

Tiffany's é para os fracos


"Make it here, make it anywhere" é uma expressão que sempre é ligada a Nova Iorque. Acho que se virar em NY é tão difícil quanto qualquer outra metrópole mundial, mas por algum motivo ela ganhou um significado maior. Talvez por causa da quantidade de gente importante que foi se arriscar lá antes do sucesso e também pela infinidade de histórias sobre isso, ficcionais ou não.

Uma das muitas histórias nesse sentido é Smithereens (de Susan Seidelman, 1982). Esse é o primeiro filme da diretora que três anos depois faria Desperatly Seeking Susan com a Madonna, que na época já era aquela coisa toda.

É bem verdade que Smithereens foi o primeiro filme independente americano a entrar na seleção oficial do Festival de Cannes, o que é uma grande coisa e motivo mais do que suficiente para transformá-lo em cult, mas assim como o Seeking Susan, vi mesmo por causa do Richard Hell.

Basicamente, o filme é um Breakfast at Tiffany's (infelizmente traduzido para Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, 1961) new wave. Só que bem menos "Moon River" e muito muito mais "Born to Lose". Um músico certinho, completamente sozinho em NY, se aproxima meio acidentalmente de uma garota instável e problemática. Esta, por sua vez, faz o que for necessário - no pior sentido possível - para entrar numa banda, ficar famosa ou qualquer coisa que tenha a ver com música e que possa trazer o desejado dinheiro que ela não tem. Em uma dessas tentativas ela conhece outro músico que tem tão pouca moral quanto ela, mas que já tem alguma fama. Arma-se então um triângulo amoroso, mas Smithereens é menos óbvio do que parece ser.

Ao invés de uma história de amor batida e leve, Smithereens tem um tom até mais amargo que o Breakfast at Tiffany's. A NY dele é mais hostil e os super rats são mais cruéis. Foi uma surpresa boa, eu não esperava um filme bom. Não esperava nada, na verdade; fiquei satisfeita quando vi que o Hell tinha falas. Ele ficou muito bem de super rat, diga-se de passagem.

Falando nisso, o estilo está todo por conta dele de novo. Essa Susan Seidelman é esperta. Ela não precisava jogar o Hell sem falas em uma cama do Seeking Susan. Um cara não precisa ser Richard Hell pra fazer um mafioso X que fica com a Madonna; a ponta foi a maior desculpa para colocar ele no filme com pouca roupa. No Smithereens, no entanto, ele faz uma diferença sensível na cara do filme. E eu não acho que precise gostar dele pra pensar assim.

O único lugar que eu encontrei para fazer o download foi nesse site aqui, quatro arquivos de rapidshare. Obrigada, Arapa Rock Motor!

Obs.: "Smithereens" significa fragmentos, pedaços pequenos.


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Ouvindo Spazzys, "My Car Doesn't Brake".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Long Time No See




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Ouvindo Smiths, "Panic".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Avant-garde


Acho que Monteiro Lobato sempre foi um personagem muito natural na infância de todo mundo; o Sítio da Globo (o original!!), que era realmente bom, deve ter levado muita gente aos livros. Mas daí, muito tempo depois, infelizmente a mesma Globo refaz o seriado com um Pedrinho carioca que diz "irado" e mais uma tonelada de coisas porcas que não estimulam ninguém a fazer nada que não seja mudar de canal, pro azar da minha geração. Apesar dessa afronta à obra dele, o respeito por Monteiro Lobato foi uma constante; até estudarmos Modernismo no colegial, é claro.

Modernismo é demais. Não acho necessário falar mais do que isso, é demais e pronto. Manuel Bandeira é modernista, Fernando Pessoa, Portinari e mais uma pá de gente idem. Por isso que a imagem simpática de Monteiro Lobato dissolve por completo com o "Paranóia ou Mistificação?". O raciocínio é: "se ele não foi capaz de enxergar a grandiosidade do que estava surgindo, ele não era tão bom assim. Aliás, ele é um filho da puta, porque isso não se faz".

Não presto atenção em todas as aulas no curso; além do saco cheio, é focado demais no vestibular, meio sufocante. Mas as de literatura são excepcionais, de verdade. E quando meu professor, o Betinho, chegou nessa parte da matéria, fez algo que nenhum outro havia feito antes: defendeu Monteiro Lobato. Não daquele jeito "veja bem" vazio, e sim colocando todo mundo no lugar dele e tomando as artes plásticas atuais como exemplo.

Ele falou de uma vez que foi com o filho na Bienal de Arte. Havia tido um happening com um artista quebrando uma taça gigante de champagne cheia de parafina, que escorreu e estava lá toda espalhada pelo chão (ou algo muito parecido com isso). O comentário do filho, que tinha uns vinte e poucos anos, foi de reprovação. Segundo ele, aquilo nem chega a ser arte, qualquer um pode fazer aquilo, não quer dizer nada, blablabla. A conclusão foi que nós, jovens de hoje, que nos achamos muito abertos e tudo mais, tratamos a arte contemporânea exatamente como Lobato tratou a arte do tempo dele. Faz mais sentido do que gostaria.

Mas vamos com calma. É bem verdade que a arte que agrada a maioria das pessoas são os Van Goghs e Picassos da vida, e embora tenha espaço em galerias, a arte contemporânea não desperta muito amores por aí. Onde "arte contemporânea" é a taça de champagne, o tubarão no aquário, coisas da Bienal e assim por diante*. Só que outra verdade que é ignorada por muitos é que pelo menos esse tipo de arte já é consagrado. O bastante para dividir os críticos e gerar discussões intermináveis. O grafite (e afins), não.

Eu acho que a arte precisa dizer alguma coisa sobre o seu tempo. Pra mim, o grafite diz muito sobre centros urbanos ocidentais e sobre os jovens que vivem em nesse ambiente. Eu, portanto. Essa manifestação existe há mais de 30 anos e é bem mais discriminada do que qualquer outra (lembrando que pichação e grafite são coisas bem diferentes). Todo mundo é meio Monteiro Lobato.

Isso tudo pra falar que abriu mais uma unidade da Choque Cultural em São Paulo, na Vila Madalena. Por isso a repetição de assunto. Uma leitura interessante é o FAQ do site deles.

* "Nãoseioque, onde isso é aquilo e aquilooutro" é muito exercício escrito de matemática.


P.S.- Sem imagem por enquanto, peraí.

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Ouvindo The Feelies, "The Boy With the Perpetual Nervousness". Trilha do Smithereens; vou falar alguma coisa dia desses aqui pra ajudar quem quer baixar. Sofri pra encontrar...

sábado, 3 de outubro de 2009

Desastre (e o que vem depois)


Forças sobrenaturais agem na biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Pelo menos comigo. Sempre descubro umas coisas muito boas e oportunas, por completo acaso e impulsividade. Acontece principalmente com HQs, prosa nem tanto, mas na semana passada caiu no meu colo um misto dos dois excepcional.

Como falei no post do Gangsta Rap, na entrada da biblioteca da circulante algumas estantes expõe edições mais novas e bonitas de vários livros com a capa para fora, não a lombada. É bem convidativo, boa idéia para deixar as pessoas com vontade. E em uma delas estava O Homem do Teto, de Jules Feiffer.

A capa chamou a atenção, li na contracapa o nome "Art Spiegelman", autor de Maus, embaixo de um textinho em itálico (que eu não li), e mesmo assim deixei ele lá sem nem abrir. Que idiota. Depois de bater muita perna entortando a cabeça por outras estantes, encontrei o livro novamente em uma parte meio bagunçada com literatura em inglês. Entendi isso como um sinal e peguei.

O site da Amazon recomenda o livro para crianças entre nove e doze anos. Bom, só o fato de ele compartilhar a prateleira com Allan Poe, D.H. Lawrence e Lewis Carrol em vez de ter sido isolado na parte infantil já prova que o pessoal do CCSP, apesar de pouco organizado, pensa.

O livro é sobre um garoto de uns dez anos chamado Jimmy Jibbet, que deseja ser um cartunista mais do que tudo. Várias pessoas acompanham os volumes do Mini-man, sua criação, mas seu sonho não é compreendido por todos à sua volta, o pai com quem praticamente não se relaciona. Ainda que sua produção de cartuns de super-heróis resulte em ascensão social na escola e um ótimo relacionamento com seu tio compositor-de-musicais-da-Broadway, Jimmy, como qualquer pessoa que deseja viver da criatividade, passa por crises muito profundas e reais relacionadas ao que o impulsiona a criar, à qualidade do seu trabalho e assim por diante, tendo a superação como ponto central.

"Entre nove e doze anos". Exupery falaria para não prestarmos atenção nas pessoas grandes numa hora dessas. A discussão que Feiffer levanta sobre o trabalho nos quadrinhos é universal, porque os problemas não são muito diferentes dos que existem na música, na literatura etc. Além de reflexões sobre fracasso e até sobre o que deve ou não ser um emprego. Muito sério, O Homem no Teto. Acho que o resultado foi tão bom porque o autor, entre outras coisas, é cartunista. Ele sabe do que está falando e acima de tudo, sabe que o membro mais novinho do seu público vai entender perfeitamente o que ele está querendo dizer.

A linguagem é muito clara, divertida e fácil. O texto é em prosa normal, com um narrador observador não muito parcial e não muito diferente do protagonista; está sempre do lado do Jimmy, falando como ele. As ilustrações estão dividas entre desenhos de passagens do livro normais, meio estilo The New Yorker, e reproduções dos cartuns de Jimmy, com um traço visivelmente feito com lápis comum e por uma criança talentosa, o que significa que o autor é talentoso pacas já que conseguiu se passar por uma criança assim. Adorei.

Veio bem a calhar ler um livro tão encorajador como esse. Meu humor ultimamente - entenda isso como "desde o ano passado" - está parecendo um eletrocardiograma e eu estava querendo vir aqui hoje só para avisar que iria dar um tempo no blog. Afinal, isso aqui no fim das contas não é muito mais que mero exercício e o fato é que estou de saco cheio de tudo; não precisava ter uma crise de choro nas últimas páginas de O Homem no Teto (ouvindo a versão que eu mais gosto de "Ain't that Nothing", o que deu uma força) pra perceber isso. Mas ele ajudou muito. Tanto que eu estou aqui.



Obs.: "Ain't that nothing" está no segundo álbum do Television, o Adventure. A versão que eu gosto é a "Single Version", está nos extras. O som é bem mais sujo e o Tom Verlaine canta tão diferente...

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Ouvindo Smiths, "I don't owe you anything".

Outro dia estava andando na rua com o guarda-chuva fechado e amarrado na mão, mas com o cabo esticado. Comecei a imitar o Morrisey pra tentar assustar as pessoas e me passar por idiota, porque ninguém vai pensar "Olha, This Charming Man". Então, eletrocardiograma.


sábado, 26 de setembro de 2009

Times A-Changin?


As pessoas que acompanham esse blog há um tempo sabem da existência do Clube de Cinema; atividade extra do meu colégio (ia falar "ex-colégio", mas não cola) cuja proposta é discutir filmes. Bem legal, sempre que possível, apareço. O da última quinta foi Faça a coisa certa (Do the Right Thing, 1989) do Spike Lee, com o Thomas, professor meu que não via há um tempão.

Foi o primeiro filme que vi dele e me surpreendi bastante. Muito bom em vários sentidos. Sabia que o Spike Lee era militante de causas relacionadas ao preconceito "racial" e afins, mas pensava que ele era meio superficial, do tipo perseguido; tudo acontece porque ele é negro, do mesmo jeito que algumas mulheres usam o fato de serem mulheres para justificar problemas e assim por diante. Nada a ver; Lee leva várias visões em consideração e nada é simples e indolor.

Coloquei "racial" entre aspas porque, parafraseando o meu Prof. Edson, gente não tem pedigree. Não existe raça negra, amarela, branca; é a raça humana e pronto. Por isso que cotas raciais são uma merda retrógrada e o racismo não tem previsão de fim. Enquanto esse tipo de conceito burro for mantido, sempre vai haver espaço para ignorância. Mas enfim. Não estou aqui para ser politicamente correta, até porque poucas coisas irritam mais do que isso, então simplesmente não vou usar essa palavra ao invés de enfiar aspas em tudo.

Efeito meio retardado, mas bem depois da discussão lembrei de outro filme: Adivinhe quem vem para jantar (Guess Who's Coming to Dinner, 1967) de Stanley Kramer. Também trata das relações entre brancos e negros, só que de um jeito bem diferente do de Spike Lee.

O título já diz bastante coisa. Uma garota leva o namorado - para jantar na casa dos pais em San Francisco com a intenção de anunciar seu noivado. Tudo bem se o namorado em questão não fosse negro. E daí tem início todo o conflito do filme, que se baseia em muito, muito diálogo.

Lindo filme. A família da garota, assim como muita gente hoje que se considera moderna para os padrões da época, se choca com a notícia, mas civilizadamente, sem pratos voando e tal; as discussões que a situação gera são do ponto de vista gente instruída, classe média/alta, disposta a conversar. Mais tarde chega para jantar a família do cara, que está na mesma posição dos anfitriões. Na medida em que o filme anda e os convidados chegam, os argumentos e diálogos enriquecem cada vez mais e o que é melhor: todo mundo conversa com todo mundo separadamente, e então tanto os radicais como os conciliadores lidam com todas as opiniões.

Essa é a maior diferença do Guess who's... com o Do the Right Thing: diálogo. O primeiro, provavelmente em razão da posição social dos envolvidos, é de certa forma frio com a situação. É claro que há momentos mais exaltados, mas ninguém quer quebrar a cara de ninguém; os conflitos são muito mais internos e ninguém quer ser racista. O do Spike Lee, não. New Yorkers do Brooklin, pobres, sujeitos a um calor infernal e cansados de tanta marginalização e exclusão não se incomodam com um conflito direto. A força e a agressividade estão na abertura do filme*, como o Thomas falou, e ao som de Public Enemy.

O noivo da moça é interpretado por Sidney Poitier, primeiro negro a ganhar um Oscar (em 63, por Lillies in the Field). A Katherine Hepburn faz a mãe da garota. Mesmo as estrelas sendo "só" essas, o elenco é muito bom, sem emoções falsas.

Uma pena eu só ter me lembrado desse filme depois da reunião de quinta. É interessante porque ele foi feito 22 anos antes de Do The Right Thing, e mesmo assim sua mensagem é muito mais otimista. O bom senso diz que deveria ser o contrário; parece que a coisa realmente não vai ter fim.


* A mulher dança MUITO!!

P.S.- O título é Dylan.

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Ouvindo Pistols, "No Fun". E ainda tem gente dizendo que o Liam Gallagher que tem voz de vômito.

AH! Ouvi o Destiny Street Repaired. Ficou até que bem diferente, mas eu gostei; vou ver se consigo escrever alguma coisa legal sobre ele pra mandar pra algum lugar. Ninguém nunca fala nada sobre o homem, mesmo. Só que me sinto meio mal por fazer isso sem ter lido Please Kill Me, sei lá.