
O dia antes da Fuvest, notória prova seletiva da universidade de São Paulo, é o momento que muita gente escolhe para entrar em pânico. Porque no fim das contas, esse é o único resultado que estudar aquela parte de Física que você esqueceu vai trazer. No entanto, para quem se preparou exaustivamente e tem consciência disso, aquele Sábado maldito é dia do hedonismo mais exageradamente self-indulgent que pode haver.
Na véspera da prova do ano passado*, depois de estudar até que bastante e estar bem nervosa por causa do corte alto e da concorrência absurda, fui ao cinema à noite ver Jules et Jim, clássico de François Truffaut. Nada de projeção digital, era uma película antiqüíssima e graças à idade, em um estado não muito bom (o cara sentado do meu lado estava puto). De certa forma esse filme me ajudou a fazer a prova com calma. Dessa vez, escolhi ficar literalmente sentada na frente do computador o dia inteiro lendo - e vendo - Watchmen. Melhor idéia, impossível.
Watchmen é uma série de HQs da DC Comics, criada por Alan Moore e Dave Gibbons, publicada em 12 volumes entre 1985 e 86.
Em geral, super-heróis ficam muito bem no cinema. O primeiro Homem-Aranha é ótimo, X-Men idem, mas nunca senti vontade de ler os quadrinhos. As séries são muito longas, às vezes independentes umas das outras, e tudo parece sempre ser mais ou menos a mesma coisa. Daí, eu infelizmente não tenho autoridade nenhuma para comparar Watchmen com os outros super-heróis. A parte boa é que você não precisa ser um expert no assunto para enxergar a genialidade desse livro; ele é brilhante em um monte de outros aspectos.
A história é contextualizada no iminente conflito nuclear entre EUA e URSS (no mesmo ano de publicação) e em uma sociedade que discute o papel dos heróis mascarados, que com apenas uma exceção, não passam de pessoas normais que usam a violência em parceria com o Estado e de certa forma, paralelo a ele. Às vezes, tão paralelamente que a própria sociedade se perguntava: e quem vigia os Watchmen?
A tal exceção é o Dr. Manhattan, nome dado ao físico que sofre um acidente nuclear e transforma-se num ser praticamente onipotente, desbalanceando a corrida armamentista do conflito e tornando-o ainda mais imprevisível e perigoso.
Além de todas as inovações temáticas, o que mais salta aos olhos está no campo estilístico. A quantidade de recursos que é usada é imensa, e não é do tipo "Guimarães Rosa", ou seja, "ele pode, mas se você, reles mortal, fizer vai se passar por imbecil". Nem é cansativo. Não, não; é genuinamente incrível. Está na linguagem oral, no jeito que os personagens se expressam, no tempo que vai e volta, na intertextualidade, nas tramas paralelas e simultâneas que se complementam, na violência dos desenhos, na reprodução de cartas, livros, jornais, documentos e todo tipo de texto (texto mesmo, prosa) que ajude a entender os personagens e os desdobramentos da história. É tanta coisa que nem vale a pena falar de tudo.
Perdoe a empolgação, mas é reconfortante ainda ser capaz de se impressionar com as coisas. Mesmo que "coisas" seja adorado por milhares de pessoas e não seja exatamente desconhecido.
P.S.- Li a versão em inglês, não faço idéia se a tradução é decente. Mas vale lembrar que a tradução sempre estraga um pouquinho, mais ainda quando o texto é cheio de gírias, trocadilhos e tal.
P.P.S.- É super fácil achar torrent da HQ na internet, é só jogar "Alan Moore Watchmen" que aparece. Lembrando também que eu baixo arquivos porque eu sei que vou acabar tendo; só preciso descobrir se a edição fresca com a caixa e aquela coisa toda está esgotada mesmo. Coisa de gente geek, vai entender.
* A maratona já tinha começado uma semana antes, com a prova da Unicamp e o show do REM. ;)
-----------
Ouvindo Falco, "Männer des Westens - Any Kind". Meio chato, mas pelo menos deu clima de anos 80.