segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Long Time No See




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Ouvindo Smiths, "Panic".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Avant-garde


Acho que Monteiro Lobato sempre foi um personagem muito natural na infância de todo mundo; o Sítio da Globo (o original!!), que era realmente bom, deve ter levado muita gente aos livros. Mas daí, muito tempo depois, infelizmente a mesma Globo refaz o seriado com um Pedrinho carioca que diz "irado" e mais uma tonelada de coisas porcas que não estimulam ninguém a fazer nada que não seja mudar de canal, pro azar da minha geração. Apesar dessa afronta à obra dele, o respeito por Monteiro Lobato foi uma constante; até estudarmos Modernismo no colegial, é claro.

Modernismo é demais. Não acho necessário falar mais do que isso, é demais e pronto. Manuel Bandeira é modernista, Fernando Pessoa, Portinari e mais uma pá de gente idem. Por isso que a imagem simpática de Monteiro Lobato dissolve por completo com o "Paranóia ou Mistificação?". O raciocínio é: "se ele não foi capaz de enxergar a grandiosidade do que estava surgindo, ele não era tão bom assim. Aliás, ele é um filho da puta, porque isso não se faz".

Não presto atenção em todas as aulas no curso; além do saco cheio, é focado demais no vestibular, meio sufocante. Mas as de literatura são excepcionais, de verdade. E quando meu professor, o Betinho, chegou nessa parte da matéria, fez algo que nenhum outro havia feito antes: defendeu Monteiro Lobato. Não daquele jeito "veja bem" vazio, e sim colocando todo mundo no lugar dele e tomando as artes plásticas atuais como exemplo.

Ele falou de uma vez que foi com o filho na Bienal de Arte. Havia tido um happening com um artista quebrando uma taça gigante de champagne cheia de parafina, que escorreu e estava lá toda espalhada pelo chão (ou algo muito parecido com isso). O comentário do filho, que tinha uns vinte e poucos anos, foi de reprovação. Segundo ele, aquilo nem chega a ser arte, qualquer um pode fazer aquilo, não quer dizer nada, blablabla. A conclusão foi que nós, jovens de hoje, que nos achamos muito abertos e tudo mais, tratamos a arte contemporânea exatamente como Lobato tratou a arte do tempo dele. Faz mais sentido do que gostaria.

Mas vamos com calma. É bem verdade que a arte que agrada a maioria das pessoas são os Van Goghs e Picassos da vida, e embora tenha espaço em galerias, a arte contemporânea não desperta muito amores por aí. Onde "arte contemporânea" é a taça de champagne, o tubarão no aquário, coisas da Bienal e assim por diante*. Só que outra verdade que é ignorada por muitos é que pelo menos esse tipo de arte já é consagrado. O bastante para dividir os críticos e gerar discussões intermináveis. O grafite (e afins), não.

Eu acho que a arte precisa dizer alguma coisa sobre o seu tempo. Pra mim, o grafite diz muito sobre centros urbanos ocidentais e sobre os jovens que vivem em nesse ambiente. Eu, portanto. Essa manifestação existe há mais de 30 anos e é bem mais discriminada do que qualquer outra (lembrando que pichação e grafite são coisas bem diferentes). Todo mundo é meio Monteiro Lobato.

Isso tudo pra falar que abriu mais uma unidade da Choque Cultural em São Paulo, na Vila Madalena. Por isso a repetição de assunto. Uma leitura interessante é o FAQ do site deles.

* "Nãoseioque, onde isso é aquilo e aquilooutro" é muito exercício escrito de matemática.


P.S.- Sem imagem por enquanto, peraí.

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Ouvindo The Feelies, "The Boy With the Perpetual Nervousness". Trilha do Smithereens; vou falar alguma coisa dia desses aqui pra ajudar quem quer baixar. Sofri pra encontrar...

sábado, 3 de outubro de 2009

Desastre (e o que vem depois)


Forças sobrenaturais agem na biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Pelo menos comigo. Sempre descubro umas coisas muito boas e oportunas, por completo acaso e impulsividade. Acontece principalmente com HQs, prosa nem tanto, mas na semana passada caiu no meu colo um misto dos dois excepcional.

Como falei no post do Gangsta Rap, na entrada da biblioteca da circulante algumas estantes expõe edições mais novas e bonitas de vários livros com a capa para fora, não a lombada. É bem convidativo, boa idéia para deixar as pessoas com vontade. E em uma delas estava O Homem do Teto, de Jules Feiffer.

A capa chamou a atenção, li na contracapa o nome "Art Spiegelman", autor de Maus, embaixo de um textinho em itálico (que eu não li), e mesmo assim deixei ele lá sem nem abrir. Que idiota. Depois de bater muita perna entortando a cabeça por outras estantes, encontrei o livro novamente em uma parte meio bagunçada com literatura em inglês. Entendi isso como um sinal e peguei.

O site da Amazon recomenda o livro para crianças entre nove e doze anos. Bom, só o fato de ele compartilhar a prateleira com Allan Poe, D.H. Lawrence e Lewis Carrol em vez de ter sido isolado na parte infantil já prova que o pessoal do CCSP, apesar de pouco organizado, pensa.

O livro é sobre um garoto de uns dez anos chamado Jimmy Jibbet, que deseja ser um cartunista mais do que tudo. Várias pessoas acompanham os volumes do Mini-man, sua criação, mas seu sonho não é compreendido por todos à sua volta, o pai com quem praticamente não se relaciona. Ainda que sua produção de cartuns de super-heróis resulte em ascensão social na escola e um ótimo relacionamento com seu tio compositor-de-musicais-da-Broadway, Jimmy, como qualquer pessoa que deseja viver da criatividade, passa por crises muito profundas e reais relacionadas ao que o impulsiona a criar, à qualidade do seu trabalho e assim por diante, tendo a superação como ponto central.

"Entre nove e doze anos". Exupery falaria para não prestarmos atenção nas pessoas grandes numa hora dessas. A discussão que Feiffer levanta sobre o trabalho nos quadrinhos é universal, porque os problemas não são muito diferentes dos que existem na música, na literatura etc. Além de reflexões sobre fracasso e até sobre o que deve ou não ser um emprego. Muito sério, O Homem no Teto. Acho que o resultado foi tão bom porque o autor, entre outras coisas, é cartunista. Ele sabe do que está falando e acima de tudo, sabe que o membro mais novinho do seu público vai entender perfeitamente o que ele está querendo dizer.

A linguagem é muito clara, divertida e fácil. O texto é em prosa normal, com um narrador observador não muito parcial e não muito diferente do protagonista; está sempre do lado do Jimmy, falando como ele. As ilustrações estão dividas entre desenhos de passagens do livro normais, meio estilo The New Yorker, e reproduções dos cartuns de Jimmy, com um traço visivelmente feito com lápis comum e por uma criança talentosa, o que significa que o autor é talentoso pacas já que conseguiu se passar por uma criança assim. Adorei.

Veio bem a calhar ler um livro tão encorajador como esse. Meu humor ultimamente - entenda isso como "desde o ano passado" - está parecendo um eletrocardiograma e eu estava querendo vir aqui hoje só para avisar que iria dar um tempo no blog. Afinal, isso aqui no fim das contas não é muito mais que mero exercício e o fato é que estou de saco cheio de tudo; não precisava ter uma crise de choro nas últimas páginas de O Homem no Teto (ouvindo a versão que eu mais gosto de "Ain't that Nothing", o que deu uma força) pra perceber isso. Mas ele ajudou muito. Tanto que eu estou aqui.



Obs.: "Ain't that nothing" está no segundo álbum do Television, o Adventure. A versão que eu gosto é a "Single Version", está nos extras. O som é bem mais sujo e o Tom Verlaine canta tão diferente...

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Ouvindo Smiths, "I don't owe you anything".

Outro dia estava andando na rua com o guarda-chuva fechado e amarrado na mão, mas com o cabo esticado. Comecei a imitar o Morrisey pra tentar assustar as pessoas e me passar por idiota, porque ninguém vai pensar "Olha, This Charming Man". Então, eletrocardiograma.


sábado, 26 de setembro de 2009

Times A-Changin?


As pessoas que acompanham esse blog há um tempo sabem da existência do Clube de Cinema; atividade extra do meu colégio (ia falar "ex-colégio", mas não cola) cuja proposta é discutir filmes. Bem legal, sempre que possível, apareço. O da última quinta foi Faça a coisa certa (Do the Right Thing, 1989) do Spike Lee, com o Thomas, professor meu que não via há um tempão.

Foi o primeiro filme que vi dele e me surpreendi bastante. Muito bom em vários sentidos. Sabia que o Spike Lee era militante de causas relacionadas ao preconceito "racial" e afins, mas pensava que ele era meio superficial, do tipo perseguido; tudo acontece porque ele é negro, do mesmo jeito que algumas mulheres usam o fato de serem mulheres para justificar problemas e assim por diante. Nada a ver; Lee leva várias visões em consideração e nada é simples e indolor.

Coloquei "racial" entre aspas porque, parafraseando o meu Prof. Edson, gente não tem pedigree. Não existe raça negra, amarela, branca; é a raça humana e pronto. Por isso que cotas raciais são uma merda retrógrada e o racismo não tem previsão de fim. Enquanto esse tipo de conceito burro for mantido, sempre vai haver espaço para ignorância. Mas enfim. Não estou aqui para ser politicamente correta, até porque poucas coisas irritam mais do que isso, então simplesmente não vou usar essa palavra ao invés de enfiar aspas em tudo.

Efeito meio retardado, mas bem depois da discussão lembrei de outro filme: Adivinhe quem vem para jantar (Guess Who's Coming to Dinner, 1967) de Stanley Kramer. Também trata das relações entre brancos e negros, só que de um jeito bem diferente do de Spike Lee.

O título já diz bastante coisa. Uma garota leva o namorado - para jantar na casa dos pais em San Francisco com a intenção de anunciar seu noivado. Tudo bem se o namorado em questão não fosse negro. E daí tem início todo o conflito do filme, que se baseia em muito, muito diálogo.

Lindo filme. A família da garota, assim como muita gente hoje que se considera moderna para os padrões da época, se choca com a notícia, mas civilizadamente, sem pratos voando e tal; as discussões que a situação gera são do ponto de vista gente instruída, classe média/alta, disposta a conversar. Mais tarde chega para jantar a família do cara, que está na mesma posição dos anfitriões. Na medida em que o filme anda e os convidados chegam, os argumentos e diálogos enriquecem cada vez mais e o que é melhor: todo mundo conversa com todo mundo separadamente, e então tanto os radicais como os conciliadores lidam com todas as opiniões.

Essa é a maior diferença do Guess who's... com o Do the Right Thing: diálogo. O primeiro, provavelmente em razão da posição social dos envolvidos, é de certa forma frio com a situação. É claro que há momentos mais exaltados, mas ninguém quer quebrar a cara de ninguém; os conflitos são muito mais internos e ninguém quer ser racista. O do Spike Lee, não. New Yorkers do Brooklin, pobres, sujeitos a um calor infernal e cansados de tanta marginalização e exclusão não se incomodam com um conflito direto. A força e a agressividade estão na abertura do filme*, como o Thomas falou, e ao som de Public Enemy.

O noivo da moça é interpretado por Sidney Poitier, primeiro negro a ganhar um Oscar (em 63, por Lillies in the Field). A Katherine Hepburn faz a mãe da garota. Mesmo as estrelas sendo "só" essas, o elenco é muito bom, sem emoções falsas.

Uma pena eu só ter me lembrado desse filme depois da reunião de quinta. É interessante porque ele foi feito 22 anos antes de Do The Right Thing, e mesmo assim sua mensagem é muito mais otimista. O bom senso diz que deveria ser o contrário; parece que a coisa realmente não vai ter fim.


* A mulher dança MUITO!!

P.S.- O título é Dylan.

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Ouvindo Pistols, "No Fun". E ainda tem gente dizendo que o Liam Gallagher que tem voz de vômito.

AH! Ouvi o Destiny Street Repaired. Ficou até que bem diferente, mas eu gostei; vou ver se consigo escrever alguma coisa legal sobre ele pra mandar pra algum lugar. Ninguém nunca fala nada sobre o homem, mesmo. Só que me sinto meio mal por fazer isso sem ter lido Please Kill Me, sei lá.

domingo, 20 de setembro de 2009

Sobre o caçador de gente


Ou "Round #2 II".

Li O Apanhador no Campo de Centeio, do JD Salinger, há uns dois anos. Não faz tanto tempo assim, mas aconteceu muita coisa desde então. Lembro de ter achado uma droga (considerando o que falam dele); o tal Holden Caulfield não me agradava muito e eu não conseguia de jeito nenhum prestar atenção no livro como um todo ao invés de me irritar com o narrador. Terminei a segunda leitura ontem e acho que comecei a entender o porquê da fama e tudo mais.

A história deve ser conhecida da maioria. É um garoto de 17 anos, Holden Caulfield, relatando o que aconteceu no Natal do ano anterior. Ele tinha acabado de ser expulso de mais um daqueles colégios chiques estilo Sociedade dos poetas mortos alguns dias antes do fim das aulas, por ter sido reprovado em várias matérias. Como não queria dar a notícia para os pais em Nova Iorque, ele resolve voltar para a cidade e enrolar até a carta do diretor falando da expulsão chegar em casa.

Ficar tão irritada com ele foi no mínimo insensível. Na verdade, foi bem burro da minha parte. Não consegui perceber que as crises dele não são muito diferentes das minhas e que a chatice extrema dele tem motivos.

O que me dava nos nervos era a postura "menino riquinho" dele. Papai e mamãe tinham dado dinheiro, então ele ia gastando com o que tinha vontade, de prostitutas a bares; só para lembrar, tudo isso porque ele foi mais uma vez expulso e não estava no estado de espírito para dar as novas. Além disso, ele também chamava todas as pessoas que encontrava de "imbecis", mas o imbecil nunca era ele.

Não que essa impressão tenha sumido com a segunda leitura, mas as razões ficaram mais evidentes. A pressão que ele estava sofrendo é a mesma que está sobre mim e as pessoas (da minha idade) com quem convivo. É terrível saber que há cinqüenta anos o peso de escolhas profissionais e acadêmicas é o mesmo, e que aqueles que não se adaptam à maneira que as coisas funcionam acabam marginalizados, como Holden. E daí não fica muito difícil achar que todos são uns imbecis. E colocar um chapéu de caça para dizer que vai caçar gente também vira uma idéia sedutora.

Outra barreira foi a edição brasileira do Apanhador. Ela é bem ruim; é da Editora do Autor. Não sei, acho a tradução e a edição bem tosquinhas, não gosto. Vou arranjar o texto original e ler mais uma vez, deve fazer uma grande diferença.

É isso aí. Há dois anos nunca chegaria a pensar que poderia me sentir mais leve depois de ler O Apanhador no Campo de Centeio.


P.S.- Sim, Mark Chapman atirou no Lennon com esse livro na mão - ou algo assim. Como se significasse alguma coisa, como se fosse trazer ele de volta e como se alguém desse a mínima. (Pior que dá.) Esse deve ser o último motivo para ler esse livro.


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Ouvindo Richard Hell and the Voidoids, "Time". Ainda não consegui ouvir o Destiny Street Repaired, infelizmente.

sábado, 12 de setembro de 2009

Novas Aquisições XXIX


(Estou começando a achar esses romanos meio frescos.)

Até amanhã vai a Primavera dos Livros no Centro Cultural São Paulo. É uma feirinha com várias editoras - algumas grandes, outras nem tanto - vendendo livros com descontos. Bacaninha; só não gostei da mulher assassinando os Rolling Stones no dito "som ambiente". Fui lá para voltar com Coração Envenado - Minha vida com os Ramones nas mãos, um livro de memórias do Dee Dee Ramone.

"Uma história dos Ramones não pode ter um final feliz", ele fala. Não é bem uma história dos Ramones, é mais contextualizada nela, mas é realmente difícil não se sentir mal com tudo que é contado nesse livro: da infância do ainda Douglas Colvin na Alemanha pós-guerra até o fim da banda é uma sucessão de rancores, falta de reconhecimento, frustrações, vícios. Para os fãs da banda, é uma maneira de entender de onde vieram as letras muitas vezes malucas dos Ramones, e para quem pensa que eles são uns imbecis que só falam "hey ho let's go" e "gabba gabba hey" é um tapa na cara do tipo "o que você sabe sobre as vidas dos outros?".

Num dos poucos programas legais da MTV (nem sei se ainda existe), João Gordo estava entrevistando Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. No inevitável assunto das drogas, o Marcelo disse que os jovens ficam curiosos em relação a elas porque não existe nenhuma literatura a respeito que consiga dar uma idéia do que elas são e fazem. Bom, taí: Coração Envenenado é o tal. Saber o que é a dependência por alguém que se destruiu em razão dela é algo difícil de esquecer, ainda mais sendo alguém como ele.

A música aparece como cenário no livro. Várias explicações sobre origens de letras, comentários sobre turnês, o relacionamento do pessoal da banda e da cena punk, mas de passagem. O Dee Dee estava querendo mais falar da sua sobrevivência quase milagrosa (o livro é de 96, ele morreu em 2002; infelizmente, de overdose).

Melancolia pesada depois de ler esse livro. Principalmente por ele já ter morrido, eu acho. No final, apesar de em algumas músicas punk existir uma vontade obstinada de melhorar esse mundo terrível, tanto individual como coletivamente, ele essencialmente fala de fracassos e fracassados. Dee Dee escrevia sobre isso como ninguém, já que essa era a sua vida.

P.S.- Agredecimentos ao Daniel pela dica ;)


Take it, Dee Dee!


(Adoro essa; letra é dele. Pena que "53rd & 3rd" só tenha uns vídeos com som ruim e "Poison Heart" é óbvio demais. "Pinhead" é do Tommy.)


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Ouvindo Sonic Youth, "Schizophrenia".

sábado, 5 de setembro de 2009

O Labirinto de Oz Sem Fim

É uma pena que agora todos os filmes de fantasia sejam feitos com efeitos especiais computadorizados. Desnecessário. Parece que há alguns anos as produtoras colocaram na cabeça que para esse gênero vender e ser atraente ele precisa de uma infinidade de artifícios digitais, e daí ninguém se atreve a fazer diferente, mesmo o resultando podendo ser melhor. Basta comparar o Hulk do seriado com o Hulk do Ang Lee.

Gosto dos bonecos, da tonelada de maquiagem e do old-school, mas não por nostalgia e nem por do-contrismo. Fica mais simpático no final; na técnica de hoje, depois da sobreposição de imagens continua parecendo que o ator está falando e olhando pro nada.

Tenho ainda mais certeza disso depois de ver Labirinto (Labyrinth, 1986, de Jim Henson). Filmão. História não exatamente original, ação meio apressada, mas muito criativo em todo o resto, além da trilha e da presença de, sim, David Bowie.

A fantasia é a irmã glamourosa da ficção-científica, e por isso mesmo as referências e homenagens correm soltas em Labirinto. Uma delas é o (quase) close no livro O Mágico de Oz que está no quarto da protagonista Sarah, uma Jennifer Connely muito novinha. Como a Dorothy, Sarah está cansada das suas obrigações e do seu mundo. Uma noite, quando estava cuidando do seu irmão bebê barulhento, ela toda revoltada começa a contar uma história de uma garota cuja madrasta sempre a obrigava a cuidar do bebê. Porém, o Rei dos Goblins* era apaixonado pela garota e havia dado poderes especiais a ela; se dissesse as palavras certas, ele levaria o bebê embora e a deixaria livre. A garota sabia que se ele o levasse embora, o bebê seria transformado em um goblin, e então ela não usava seus poderes. Não precisa falar que a garota da história de Sarah é ela mesma e chega uma hora que ela fala as palavras certas. Daí, o que parecia ser ficção, vira realidade. E então ela precisa resgatar seu irmãozinho.

É um misto meio pop de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, Victor Fleming, 1939) e História Sem Fim (Die unendliche Geschichte, 1984, Wolfgang Petersen). São praticamente os mesmos elementos; tem uma coisa com um livro também, mas não vale à pena explicar. Não pense que isso é um defeito, muito pelo contrário. Eles se complementam, de certa forma. E Labirinto é tão lindo quanto os outros; chorei como uma imbecil, como sempre.

A atuação da Jennifer Connelly é engraçada. Todo mundo sabe que ela é uma baita atriz e tal, mas o constante ar blasé dela chega até a irritar um pouco. "Que coisa, a minha história virou realidade", "que coisa, vou ter que ir pra outro mundo", "que coisa, o Bowie está dando em cima de mim". Mas isso deve ser da personagem, não deve ser culpa dela. Só que ela estava com sorte do cool estar por conta de outra pessoa.

Achei incrível a sofisticação dos personagens; de gente mesmo só a família da menina, ela e o Bowie. Todos os outros são bonecos com movimentos e expressões bem realistas, muito originais e engraçadinhos. Tem ainda outros detalhes ao longo do filme geniais, mas eu não vou ficar falando porque spoiler é chato.

Um detalhe: o roteiro (não a história) é do Terry Jones, que é um Python, veja só. Ele também escrevia alguns para o grupo.

E a trilha é muuuito bacana; é a cara do Bowie. É claro que tem hora que pára tudo pra ele cantar, e se não tivesse eu iria ficar brava. As músicas são dele e de Trevor Jones.

Esse é pra ver muitas vezes.

* Um goblin é um duende?


Obs.: Where the Wild Things Are usa bonecos. Spike Jonze sabe o que faz.

Obs 2.: Existe uma chance bem grande do nome "Hogwarts" ter saído daí.

SPOILER (tingido de branco):
Obs 3 .: M. C. Escher é o artista.


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Ouvindo "She's Electric" do Oasis, de novo, mas já estou parando.