
É uma pena que agora todos os filmes de fantasia sejam feitos com efeitos especiais computadorizados. Desnecessário. Parece que há alguns anos as produtoras colocaram na cabeça que para esse gênero vender e ser atraente ele precisa de uma infinidade de artifícios digitais, e daí ninguém se atreve a fazer diferente, mesmo o resultando podendo ser melhor. Basta comparar o Hulk do seriado com o Hulk do Ang Lee.
Gosto dos bonecos, da tonelada de maquiagem e do old-school, mas não por nostalgia e nem por do-contrismo. Fica mais simpático no final; na técnica de hoje, depois da sobreposição de imagens continua parecendo que o ator está falando e olhando pro nada.
Tenho ainda mais certeza disso depois de ver Labirinto (Labyrinth, 1986, de Jim Henson). Filmão. História não exatamente original, ação meio apressada, mas muito criativo em todo o resto, além da trilha e da presença de, sim, David Bowie.
A fantasia é a irmã glamourosa da ficção-científica, e por isso mesmo as referências e homenagens correm soltas em Labirinto. Uma delas é o (quase) close no livro O Mágico de Oz que está no quarto da protagonista Sarah, uma Jennifer Connely muito novinha. Como a Dorothy, Sarah está cansada das suas obrigações e do seu mundo. Uma noite, quando estava cuidando do seu irmão bebê barulhento, ela toda revoltada começa a contar uma história de uma garota cuja madrasta sempre a obrigava a cuidar do bebê. Porém, o Rei dos Goblins* era apaixonado pela garota e havia dado poderes especiais a ela; se dissesse as palavras certas, ele levaria o bebê embora e a deixaria livre. A garota sabia que se ele o levasse embora, o bebê seria transformado em um goblin, e então ela não usava seus poderes. Não precisa falar que a garota da história de Sarah é ela mesma e chega uma hora que ela fala as palavras certas. Daí, o que parecia ser ficção, vira realidade. E então ela precisa resgatar seu irmãozinho.
É um misto meio pop de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, Victor Fleming, 1939) e História Sem Fim (Die unendliche Geschichte, 1984, Wolfgang Petersen). São praticamente os mesmos elementos; tem uma coisa com um livro também, mas não vale à pena explicar. Não pense que isso é um defeito, muito pelo contrário. Eles se complementam, de certa forma. E Labirinto é tão lindo quanto os outros; chorei como uma imbecil, como sempre.
A atuação da Jennifer Connelly é engraçada. Todo mundo sabe que ela é uma baita atriz e tal, mas o constante ar blasé dela chega até a irritar um pouco. "Que coisa, a minha história virou realidade", "que coisa, vou ter que ir pra outro mundo", "que coisa, o Bowie está dando em cima de mim". Mas isso deve ser da personagem, não deve ser culpa dela. Só que ela estava com sorte do cool estar por conta de outra pessoa.
Achei incrível a sofisticação dos personagens; de gente mesmo só a família da menina, ela e o Bowie. Todos os outros são bonecos com movimentos e expressões bem realistas, muito originais e engraçadinhos. Tem ainda outros detalhes ao longo do filme geniais, mas eu não vou ficar falando porque spoiler é chato.
Um detalhe: o roteiro (não a história) é do
Terry Jones, que é um Python, veja só. Ele também escrevia alguns para o grupo.
E a trilha é muuuito bacana; é a cara do Bowie. É claro que tem hora que pára tudo pra ele cantar, e se não tivesse eu iria ficar brava. As músicas são dele e de Trevor Jones.
Esse é pra ver muitas vezes.
* Um goblin é um duende?
Obs.: Where the Wild Things Are usa bonecos. Spike Jonze sabe o que faz.
Obs 2.: Existe uma chance bem grande do nome "Hogwarts" ter saído daí.
SPOILER (tingido de branco):
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Ouvindo "She's Electric" do Oasis, de novo, mas já estou parando.